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Hélio Fervenza
1963, Sant'Ana do Livramento, Brasil. Vive em Porto Alegre, Brasil.
Artista visual, professor e pesquisador, Hélio Fervenza realiza sua obra plástico-teórica a partir de uma profunda reflexão sobre as noções de apresentação, exposição e autoapresentação empregadas usualmente no terreno da arte. Considerando o conceito de apresentação como um ideário mais amplo que o de exposição, Fervenza postula que a configuração de um espaço expositivo não estaria garantida apenas em decorrência da presença física de uma produção artística no ambiente contextual instaurado pelo museu ou pela galeria – ela se estabeleceria, essencialmente, a partir do cruzamento de dispositivos que operam sobre a visualidade. Interessado por formas de realização artística que buscam alternativas para os moldes canônicos de exibição consagrados e amplamente difundidos na arte – e que não almejam necessariamente se conformarem como exposições ou mesmo estarem direcionados a uma audiência determinada –, o artista criou o conceito de autoapresentação, que enfatizaria, em suas palavras, “os processos de criação e vivências artísticas pessoais, e o uso de conhecimentos, situações ou materiais não pertencentes ao campo da arte, às suas práticas ou às suas tradições”. Para Fervenza, a exposição e a autoapresentação constituiriam, portanto, dois aspectos da apresentação no campo da arte contemporânea, ao mesmo tempo que indicariam limites da atuação desse campo e das concepções da arte aí relacionadas.

Odires Mlászho
1960, Mandirituba, Brasil. Vive em São Paulo, Brasil.
A apropriação de imagens esquecidas, empoeiradas ou escondidas dentro de livros e a reconstrução, de maneira a atar encontros anacrônicos, quase impossíveis entre elas, povoam a poética de Odires Mlászho. Desprendidas do livro, o artista esculpe, cola, recorta, esfolia, molha, rasga, serpenteia, desgasta, enfim, modifica essas imagens e as refotografa – o que se vê são índices desse processo. Após transformar em colagens esses conteúdos visuais, que parecem ter se desvinculado de seus afetos e laços de memória, o artista os faz novamente circular em outra linguagem. “Mas em troca disso, imponho uma condição: quero a sua alma. Quero alguma coisa em troca nesse jogo perverso”, afirma. O livro também é objeto de manipulação para Odires: volumes, capas, páginas, lombadas são violados e quase sempre perdem seu inerente manuseio. Assim, enciclopédias, editoriais fotográficos,livros-reportagem e compêndios botânicos tornam-se livros-esculturas, oferecem-se a uma contemplação ativa. O artista inaugura outras formas de livro, de espaço e de limite entre escultura e livro, configurando uma imprecisão a ser invadida pelo olhar e um jogo simbólico a partir de seu ponto de referência – o livro –, que é o fator determinante em sua obra.

Max Bill
1908, Winterthur, Suíça - 1994, Berlin, Alemanha.

Max Bill foi um designer gráfico, designer de produto, arquiteto, pintor, escultor, professor e teórico do design, cuja obra o coloca entre os mais importantes e influentes designers do século XX e do século atual, tendo como principal o concretismo. Bill constantemente é apontado como um personagem que sempre teve uma relação polêmica com a trajetória do design e da arquitetura no Brasil. Se, por um lado, suas idéias foram certamente bastante influentes na formação da escola artística conhecida como o concretismo (em especial, o concretismo paulista) e na própria formação do design gráfico no país (tendo em Alexandre Wollnerum de seus mais conhecidos discípulos e um de seus mais fortes defensores), por outro lado, Max Bill foi sempre bastante crítico à arquitetura moderna brasileira, a qual ele dizia ser formalista e, eventualmente, "anti-moderna". Entre as poucas obras arquitetônicas brasileiras celebradas por Bill está o Conjunto habitacional Pedregulho, o qual ele considerava uma exceção no cenário brasileiro, pelo seu enfoque social.

Bruno Munari

1907, Milão, Itália - 1998, Milão, Itália.

Bruno Munari foi artista, designer, escritor, ilustrador e educador. De personalidade investigativa, contribuiu com fundamentos nos campos das artes visuais e da literatura, demonstrando especial interesse pelos livros – que considerava espaços para experiências subjetivas e multissensoriais – e por temas como o jogo, a infância e a criatividade. Celebrado por Giulio Carlo Argan como um dos maiores expoentes da cultura artística italiana, dedicou-se intensamente a atividades didá- ticas e tinha uma maneira muito própria de subverter programaticamente o sentido das coisas, transformando a ironia em método de trabalho. Munari considerava a infância como o momento mais fértil para a formação de uma personalidade plenamente criativa e trabalhou a extrema receptividade sensorial das crianças nos laboratórios lúdicos que desenvolveu, nos quais propôs a exploração ativa de variadas técnicas artísticas. Para Munari, cada obra de arte continha implicitamente a mensagem de que, através do contato e da experiência com meios expressivos, todos somos capazes de criar objetos estéticos.

Lygia Clark

1920, Belo Horizonte, MG - 1988, Rio de Janeiro, RJ.

Pintora, escultora. Muda-se para o Rio de Janeiro, em 1947, e inicia aprendizado artístico com Burle Marx (1909-1994). Entre 1950 e 1952, vive em Paris, onde estuda com Fernand Léger (1881-1955), Arpad Szenes (1897-1985) e Isaac Dobrinsky (1891-1973). De volta para o Brasil, integra o Grupo Frente, liderado por Ivan Serpa (1923-1973). É uma das fundadoras do Grupo Neoconcreto e participa da sua primeira exposição, em 1959. Gradualmente, troca a pintura pela experiência com objetos tridimensionais. Realiza proposições participacionais como a série Bichos, de 1960, construções metálicas geométricas que se articulam por meio de dobradiças e requerem a co-participação do espectador. Nesse ano, leciona artes plásticas no Instituto Nacional de Educação dos Surdos. Dedica-se à exploração sensorial em trabalhos como A Casa É o Corpo, de 1968. Participa das exposições Opinião 66 e Nova Objetividade Brasileira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM/RJ). Reside em Paris entre 1970 e 1976, período em que leciona na Faculté d´Arts Plastiques St. Charles, na Sorbonne. Nesse período sua atividade se afasta da produção de objetos estéticos e volta-se sobretudo para experiências corporais em que materiais quaisquer estabelecem relação entre os participantes. Retorna para o Brasil em 1976; dedica-se ao estudo das possibilidades terapêuticas da arte sensorial e dos objetos relacionais. Sua prática fará que no final da vida a artista considere seu trabalho definitivamente alheio à arte e próximo à psicanálise. A partir dos anos 1980 sua obra ganha reconhecimento internacional com retrospectivas em várias capitais internacionais e em mostras antológicas da arte internacional do pós-guerra.