areal

Absalon

1964, Ashdod, Israel - 1993, Paris, França.

O trabalho de Absalon está intimamente ligado à arquitetura e lida com questões existenciais da vida na sociedade contemporânea. Fascinado pelo espaço, suas obras questionam a preservação da individualidade nos centros urbanos, em um mundo adepto à superexposição e à homogeneidade global. As formas geométricas brancas que, em seus primeiros trabalhos, apareciam como pequenas esculturas, ganharam tamanho e passaram a dialogar com o corpo humano. Absalon, então, passou a fazer suas esculturas a partir das medidas de seu corpo, criando suas células: espaços habitáveis extremamente funcionais e inevitavelmente privativos. As células, que remetem à arquitetura modernista, discutindo o fim de suas utopias e investigando um novo entendimento do indivíduo,foram planejadas para que o artista vivesse temporariamente em alguns dos maiores centros urbanos do mundo. São obras que se apresentam como um espaço de resistência da intimidade, da solidão e do confinamento, sufocadas pelo ambiente urbano – um trabalho autobiográfico tão público quanto íntimo.

Alair Gomes

1921, Valença, Brasil - 1992, Rio de Janeiro, Brasil.
Engenheiro de formação, filósofo, escritor, estudioso e crítico de arte, Alair Gomes passou a dedicar-se à fotografia somente nos últimos 26 anos de sua vida e produziu um conjunto de aproximadamente 170 mil negativos que têm o corpo masculino como tema. Com um caráter fortemente confessional, sua poética é elaborada, sobretudo, no processo de edição e de organização de suas imagens, baseado em noções de ritmo e nas relações formais estabelecidas entre as fotos. Ao classificar e intitular suas séries como se fossem peças musicais, Gomes mostra corpos masculinos jovens em poses que fazem alusão a esculturas clássicas. Sem inibições ou concessões, suas sequências revelam um jogo de sedução e de entrega entre fotógrafo e seus modelos, no qual são mostrados pênis, tórax, abdômen, pelos e sugestivos enquadramentos de troncos e quadris. Embora o cunho homoerótico seja evidente,seus conjuntos não se configuram como um discurso em defesa da homossexualidade. Por meio de fotografias posadas ou de imagens tomadas a distância com uma teleobjetiva, da janela de seu apartamento, as imagens de Alair Gomes testemunham o desejo compulsivo do artista e espelham o mundo que ele idealizava.

Alberto Bitar
1970, Belém, Brasil. Vive em Belém, Brasil.
Alberto Bitar fotografa pessoas, paisagens, cidades, situações e contextos como uma testemunha da existência. Explora os limites técnicos da fotografia na construção de uma linguagem visual de sofisticada simplicidade, e faz das modificações luminosas e das variações na velocidade de captação um modo particular de registrar e evidenciar ocorrências fugazes, impressões sutis e momentos peculiares de nossa subsistência. Ao questionar a noção do registro objetivo da imagem em fotografias impactantes,estranhas e surpreendentes,Bitar propõe maneiras de abordar o real através de sua complexidade não factual e cria uma obra plástica que não parece almejar ser um reflexo do mundo, mas uma via de exposição das tensões e dos paradoxos que se instauram em nosso eterno embate com as circunstâncias nas quais estamos inscritos. Sempre em deslocamento, seu processo criativo também busca a relação da imagem fotográfica com a construção fílmica como possibilidade de tecer indagações sobre a ocasião precisa em que se sucedem determinados fatos, sobre o vazio e sobre o que se esconde, eversivo, nos interstícios do instante congelado. Evocando questionamentos sobre o que é ou não visível na imagem artística, as fotografias de Alberto Bitar não raro provocam uma sensação de afastamento e nos lembram de que não existe uma visão do real unívoca, certa e consistente à qual possamos nos apegar.

Alejandro Cesarco
1975, Montevidéu, Uruguai. Vive em Nova York, Estados Unidos.
Alejandro Cesarco trabalha os vínculos da leitura, da narração e da escrita, explorando a noção de texto, seus significados e sua autonomia. Em seus livros, fotos, desenhos, vídeos e pinturas, o artista investiga as diferenças entre a leitura e a observação e como o ato de ler se relaciona com a formação de sentido. A obra de Cesarco faz uso da rede de significados que todo texto apresenta, e busca entender as condições que o tornam possível, bem como as consequências e os efeitos que produz. O que está além das palavras fascina o artista: um de seus principais interesses é a transformação resultante da leitura. De acordo com Cesarco, são as experiências e expectativas de quem lê que constituem o texto, ideia que torna o leitor, e não somente o autor, responsável pelo que está escrito. Explora em seus trabalhos, portanto, a leitura enquanto ato criativo, originador de novos significados. Por meio de narrações, interpretações e traduções, traz o interlocutor para perto, como protagonista desse processo.

Alexandre da Cunha
1969, Rio de Janeiro, Brasil. Vive em Londres, Inglaterra.
Frequentemente desenvolvida em séries, a obra de Alexandre da Cunha transita entre o minimalismo, a abstração geométrica e a arte representacional, com uma leve marca de Brancusi. O processo de intervenção, apropriação e recontextualização de objetos cotidianos usados principalmente pelo indivíduo que executa trabalho manual é essencial às instalações esculturais de Alexandre da Cunha – a maioria composta por materiais produzidos em massa, como esfregões, desentupidores, tábuas de passar roupas, toalhas, cerâmicas, tecidos ou vassouras. O artista liberta o material escolhido de seu significado cultural preconcebido e o transforma em montagens neominimalistas. Ele diz que “a limpeza pode ser bastante meditativa e de alguma maneira envolve a ideia de uma nova situação, um reinício possível, uma tela branca”. O ato de limpar ou purificar está na raiz de sua prática artística na medida em que ele toma algo que é rico em conotações sociais e culturais e o reinventa para criar algo mais, livre de sua função doméstica original, permitindo, com isso, que o objeto se torne vivo e realize uma nova abordagem estética.

Alexandre Navarro Moreira
1974, Porto Alegre, Brasil. Vive em Porto Alegre, Brasil.
Alexandre Navarro Moreira desenvolve ações independentes nas quais as ideias de seriação, disseminação, apropriação, colaboração, produção e compartilhamento de informação são evidenciadas através do uso indiscriminado de imagens fotográficas oriundas das mais diversas fontes. Caracterizando sua produção pela noção de work in progress, o artista aposta na integração de sua obra com os ambientes, urbanos ou naturais, em que a instaura. Seu trabalho Apócrifo, iniciado em 2001, por exemplo, ganha forma em cartazes com retratos de pessoas – imagens reticuladas p&b impressas sem identificação alguma – inseridos diretamente na paisagem urbana. Os retratos são impressos propositalmente com a granulação fotográfica mais aberta, comprometendo a percepção da imagem do rosto à medida que nos aproximamos da obra. Colados em muros e tapumes onde habitualmente são veiculados cartazes para divulgação de eventos e espetáculos, a apresentação de Apócrifo ocorre em um nível concreto de integração do objeto artístico com o contexto cotidiano das grandes metrópoles – fazendo com que as imagens, em sua relação quase indiferente com o lugar e com as pessoas que nele circulam, se tornem uma alegoria possível da condição humana.

Alfredo Cortina
1903, Valência, Venezuela. 1988, Caracas, Venezuela.
Alfredo Cortina é unanimemente considerado um dos fundadores da radiofonia moderna na Venezuela. Roteirista de rádio e televisão, Cortina escreveu radionovelas, programas culturais, adaptações de contos infantis, séries de ficção e telenovelas, além de dramas e comédias para o teatro. Cortina frequentou durante toda a sua vida um grupo de intelectuais e artistas de vanguarda venezuelanos – entre eles estavam sua esposa, a poetisa Elizabeth Schön, as irmãs Ida e Elsa Gramcko, poetisa e pintora respectivamente, Carlos Puche, pioneiro da fotografia moderna venezuelana, e o filósofo Ernesto Mayz Vallenilla. Aficionado pela fotografia, Cortina realizou, discreta e silenciosamente, uma obra significativa com esse meio. Tendo sua esposa como único modelo e utilizando um sistema compositivo estritamente repetitivo, Cortina interrogou a noção de paisagem e sublinhou, ao mesmo tempo, o pitoresco e a estranheza de uma realidade observada através de um ponto de vista no qual as subjetividades do fotógrafo e da modelo aparecem completamente neutralizadas.

Ali Kazma
1971, Istambul, Turquia. Vive em Istambul, Turquia.
Entre a aproximação realista, marcadamente metódica e detalhista, e a construção poética, os filmes de Ali Kazma revelam as habilidades, as técnicas, a atenção, o esforço e a estética envolvidos nas práticas e rotinas de diferentes profissões. Ao apontar para o que normalmente não vemos ou, simplesmente, para o que não percebemos da vida em sociedade, suas criações exploram o que há de humano – e, paradoxalmente, o que há de máquina – nas práticas, produtos e serviços que atravessam o nosso dia a dia. Além de instigar questionamentos sobre a natureza, o sentido e o significado do labor humano, os filmes de Kazma também indagam sobre o modo como as variadas ocupações definem o homem e seu estar no mundo hoje. A partir da relação que mantemos com os processos de trabalho, com os quais estamos voluntária ou involuntariamente envolvidos, as produções do artista tratam dos acordos do ser humano com a sociedade e suas transformações e geram alto nível de identificação no espectador.

Allan Kaprow
1927, Atlantic City, Estados Unidos. 2006, Encinitas, Estados Unidos.
No final dos anos 1950, Allan Kaprow criou uma série de atividades aparentemente aleatórias, mas cuidadosamente coreografadas, intitulada 18 Happenings in 6 Parts. Com esta obra, inaugurou um processo de trabalho que o conduziria à produção de experiências artísticas impermanentes que desafiavam a postura do espectador ante a obra de arte. Por meio de happenings, Kaprow incorporou a improvisação e a participação do público, tornando difusa a separação entre artista e espectador. Assim, ao mesmo tempo em que questionava o sistema da arte vigente, propôs uma nova categoria artística na qual a coautoria da obra era dada ao público. Considerando a vida muito mais interessante do que a arte, o artista procurou manter indistinta a linha de separação entre arte e vida ao destacar as experiências vividas pelo público e o convidando a participar da criação do evento de forma ativa. Insistindo na sobrevivência de sua obra apenas na memória dos participantes, Kaprow gradualmente alterou sua prática artística para o que ele denominou simplesmente de Atividades: trechos de pequena escala a serem realizados por uma ou mais pessoas e incorporados aos hábitos do dia a dia.